
embarque
Sair de Buenos Aires sobrevoando o Río de La Plata foi difícil. Ver aquela imensidão marrom e aqueles quadradinhos, aquelas quadras que eu tanto caminhei. Tomei minha última Quilmes no aeroporto, sozinha, olhando pro relógio, olhando pra moedas de peso que eu inevitavelmente tive que trazer pro Brasil. Eu que sempre amei as moedas argentinas queria deixá-las todas ali, empilhadas na mesa, como aquelas pilhas de pedras no meio de deserto que dizem: alguém morreu aqui. Eu morri numa mesa de um café no aeroporto nacional de Buenos Aires. barriga vazia, última vez que comi torradas chamadas de tostadas, não sei quando será a próxima. Embarcar.
Lá de cima minhas lágrimas caíam na mesma velocidade do avião: Mi Buenos Aires Querido ficou embaixo dos meus pés. Blusa molhada pelas lágrimas e lá se vai o avião mirim da Pluna. Conexão em Montevideo, espera, pessoas impacientes. Lá vou eu outra vez.
Nuvens, muitas nuvens, todas as nuvens que não vi nesses cinco meses me esperavam no caminho pro Rio. E mar, por cima do mar, em cima do mar eu dormi. E no meio da neblina eu vi o Rio, como se se escondesse num charme de namorado trocado. Meu coração de falsa carioca tremeu inteiro e eu me controlei. Quem me esperaria lá? A impressão de desconhecer a tudo era imensa, mas a calma dos meus morros era maior.
No free shop quase abraçar o antendente só porque ele falava português. Que charme atender em português. Que saudade. Absolut, coração e Jose Cuervo nas mãos. Carrinho quebrado, mochila de livros, mala com 15kg de excesso de bagagem. Eu com 15kg de excesso de bagagem. Corredor, cansaço e família. Meu pai, minha mãe, Mira, Izabel, Malú, Adriano, Nanda e a sua ausência. Cartazes, cores, bandeira do Brasil, sim, casa, mas o que é se sentir em casa? Até agora não sei, até agora espero a emoção imensa de cair nos braços do que é meu. E não caio, sempre estive lá, derramada nos braços do que é meu. Conforto. Meu conforto. Meu, isso tudo aqui é meu.
Ainda esqueço um pouco as palavras, mas já passou o estranhamento de ter que falar português com as pessoas nas ruas. Hoje tive minha primeira entrevista de emprego e ter estado em Buenos Aires me deu uma segurança de mãe, como se a cidade me desse a mão. Tenho medo do meu espanhol enferrujar, língua não é como andar de bicicleta.
Sinto falta da linearidade da cidade. Dos números certos, da certeza, dos quadrados e das esquinas. Dos ônibus e da rapidez. Mais que da rapidez, da fluidez de Buenos Aires. Sinto falta dos quioscos e da segurança. Mas agora me dei uma carta de alforria e ninguém mais me tira.
E domingo o mar. Sim, o mar… O mar lá no fundo com a sua falta de horizonte, as pessoas caminhando pela orla. A saudade sendo matada, euforia, risos, um banco, um cachorro feio, doce de leite e a sua presença. E a presença do mar. O mar, meu deus, o mar! O mar, os morros, a brisa, o mar no céu, meu deus, o céu no mar!
E esse é o último post desse blog. Minha proposta totalmente desviada. Buenos Aires me tornou alguém mais detalhista, mais cuidadosa com o que quero guardar pra mim. No fim das contas isso é meu diário, com milhões de referências que talvez só eu entenda. Sim, eu amo Buenos Aires e sim, eu sinto falta, mas nada supera o meu lugar.
E sim, o Rio de Janeiro continua uma porção de coisa. E mais do que na música, o Rio de Janeiro continua meu. Todo meu.



